A despedida

Os iconoclastas adentraram o último templo brandindo clavas e tochas ardentes.

Ele tudo observava. , com a paciência que os anos lhe presentearam, mas não sem uma melancolia que sempre o acompanhava nestas ocasiões. Aquela ocasião, no entanto, parecia ser diferente. Não haveria havia mais volta. Encaminhavam-se os iconoclastas ao altar-mor. No caminho, destruíram os vitrais  atirando-lhes com pesadas pedras, atearam fogo às alvas cortinas de seda, riscaram blasfêmias com carvão nas paredes de mármore. Ele apenas observava. No altar-mor, juntos, começaram a empurrar a grande estátua com toda a força que a ira lhes permitia. Urravam quando a imagem de Ishtum veio abaixo, quebrada em quatro partes. Cuspiram e urinaram na cabeça da estátua, rolaram os braços sobre a nave. Destruíram as salas de culto, saquearam a câmara secreta, repleta de tesouros acumulados através das eras  – castiçais de prata, estatuetas de jade, mandalas cravejadas de esmeraldas e lápis-lazúli lapizazuli, ervas especiais trazidas dos mais distantes lugares. milhares de moedas acumuladas através das eras. Naquele instante, o corpo do último sacerdote era erguido no pórtico do templo. Seu sangue respingava nas escadarias de alabastro. Ele tudo observa. O último sacerdote de Ishtum deu seu derradeiro suspiro. Ele tudo observava. Não haveria mais volta. Ele, o último deus do antigo panteão, sem adoradores, humilhado e vilipendiado pelos fiéis de um deus que desconhecia, estava condenado ao Silêncio.

Abandonou o templo em chamas. Ouvia de lá os gritos de adoração ao novo deus, o único, segundo eles. Sua tristeza transformou-se num fino raio de sol que o encontrou na saída do templo. Deveria despedir-se da existência, abandonar para sempre o mundo dos homens e cair no esquecimento a que são condenados os deuses sem aqueles que orem em seu nome. Era o que devia fazer, era seu destino.

No entanto, quando já alcançava o último degrau da escadaria, entreviu uma menina sentada numa pedra, acariciando sua boneca de pano. Silenciosa, observava a destruição do templo de Ishtum. Não acreditou quando a menina largou a boneca e encaminhou-se em sua direção. Deteve-se a alguns metros dele e acenou-lhe um adeus. Ishtum deve ter chorado naquele instante: ainda lhe restariam alguns anos de vida, enquanto habitasse o minúsculo coração da menina.

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