Os sonhos

En la mentira infinita de ese sueño también lo habían alzado del suelo, también alguien se le había acercado con un cuchillo en la mano, a él tendido boca arriba, a él boca arriba con los ojos cerrados entre las hogueras.

La noche boca arriba, Julio Cortázar

Na noite anterior à prova, adormeceu entre os livros – uma edição surrada de Gradus Primus, uma gramática de Latim de Napoleão Mendes, comprada meses antes de um dono de sebo pouco experiente, e um exemplar do dicionário Latino Português de Santos Saraiva.

Quase De quase nada do que viveu no sonho daquela noite ele lembraria.

Não se lembraria da coloração amarelada das tendas empoeiradas amareladas pelo pó do velho mercado romano, das vielas claustrofóbicas de Subura, dos sorrisos desdentados dos comerciantes enquanto pesavam azeitonas, carregavam pães enormes em cestas forradas de algodão, entregavam aos escravos dos compradores as ervas encomendadas – não, não se lembraria do esquecidos o aroma adocicado  do de um viçoso ramo de manjericão, o acre odor do orégano nas mãos de uma mulher de olhar triste em Vicus Tuscus. com o qual e o semblante triste daquela mulher de semblante triste passou a seu lado em Vicus Tuscus. Não se lembraria do sangue desenhando formas aleatórias no duro chão de barro quando Pupianus Salvius,  sorrindo ao lembrar de um sonho que tivera na noite anterior, deu uma estocada na jugular do cordeiro – não se lembraria nem sequer da carcaça do mesmo cordeiro sendo pendurada por Pupianus Salvius em um gancho enferrujado de suas partes expostas à venda, das moedas que compraram sua anca direita, nem se lembraria do sorriso no rosto do açougueiro naquele exato instante [por isso mesmo não lembraria do seu desejo de saber o que escondia aquele sorriso - prazer, perversão, crueldade...]. Jamais se lembraria do toque suave de seus dedos na seda fina dançando ao quente vento de junho no Campo de Marte – quanto havia andado para ter chegado ali, do outro lado da cidade? Jamais, jamais se lembraria do olhar inquiridor do negociante de escravos, nem de suas mãos maliciosas roçando o minúsculo seio da jovem macedônia. Não lembraria, por todos os deuses, não lembraria, da ira que correu por seu sangue quando o negociante esbofeteou a linda macedônia seminua. Depois disto, no entanto, algo mudou. Neste Nesse instante, lembrou de toda a intolerância, toda a violência pela qual ele mesmo passara e não silenciou. A partir daí, nada mais seria esquecido, tudo permaneceu em sua memória. Esbravejou contra o infame negociante, exigindo que tratasse a escrava com a mínima dignidade – se é que se pode falar de dignidade na condição do escravo. Temerária a sua atitude de estrangeiro em terras de Roma, mas não podia calar diante do ato nefasto do negociante. Enquanto as palavras saíam perfeitamente articuladas de sua boca, como lâminas ancestrais cortando o ar fétido putrefato da alameda romana, percebeu que se multiplicavam os risos – logo transformados em gargalhadas – dos negociantes, dos transeuntes. Advertiu, não sem assombro, até mesmo um leve sorriso no canto da boca da escrava macedônia. Inutilmente continou gritando, mas isso só aumentava a balbúrdia. Talvez ele nunca entendesse o porquê dos risos. Deu de ombros e continuou caminhando sem rumo pela cidade. Entendeu o que acontecia poucos segundos depois: a voz do negociante de escravos, com uma entonação que pareceu-lhe lasciva e permeada um sarcasmo incontido, chegava a seus ouvidos, mas ele nada entendia. Só assim compreendeu que O jovem estudante, em seu sonho, não tinha percebido que o latim que aprendera aprendido nas estéreis salas de aula não servia para as antigas ruas de Roma: era uma pantomima, como máximo, do que falavam aqueles homens rudes.

Despertou entre suores.

Os livros ainda sobre a escrivaninha. O sol subia tímido pela janela do seu quarto e sala quando ele se dirigiu para a geladeira e tomou um gole de leite em caixa, sem suspeitar que numa manhã exatamente como aquela, Pupianus Salvius, o açougueiro cuja estocada certeira matara o cordeiro nas vielas de Roma, também despertara de um sonho perturbador.

Estava ele em uma sala cuja limpeza lhe agredia os olhos. Uma sala não muito ampla, alva as túnicas dos magistrados. Várias sellas dispostas simetricamente em filas – sete, no máximo, lembrava perfeitamente. – nas quais Havia jovens sentados nas sellas. Usavam com roupas estrangeiras – persas? –extremamente coloridas [havia desenhos, imagens de faces humanas e de animais, letras e mais letras em túnicas que mal chegavam à cintura], debruçavam-se sobre pergaminhos colocados sobre uma pequena mesa grudada à sella. Na frente deste salão permanecia de pé e estático um homem com roupas mais sóbrias, mas igualmente estrangeiras. Ao perceber a inquietação do jovem Pupianus, o homem, com uma voz austera, dirige-se a ele com um olhar ameaçador. Pupianus não lembra o que o homem perguntou. Lembra, no entanto, que sua fala, pomposa e arredondada como a dos glotões senadores, mas com um acento estrangeiro indisfarçável, provocou-lhe um acesso de riso, parado apenas pelo seu despertar, naquela manhã ensolarada de junho.

A despedida

Os iconoclastas adentraram o último templo brandindo clavas e tochas ardentes.

Ele tudo observava. , com a paciência que os anos lhe presentearam, mas não sem uma melancolia que sempre o acompanhava nestas ocasiões. Aquela ocasião, no entanto, parecia ser diferente. Não haveria havia mais volta. Encaminhavam-se os iconoclastas ao altar-mor. No caminho, destruíram os vitrais  atirando-lhes com pesadas pedras, atearam fogo às alvas cortinas de seda, riscaram blasfêmias com carvão nas paredes de mármore. Ele apenas observava. No altar-mor, juntos, começaram a empurrar a grande estátua com toda a força que a ira lhes permitia. Urravam quando a imagem de Ishtum veio abaixo, quebrada em quatro partes. Cuspiram e urinaram na cabeça da estátua, rolaram os braços sobre a nave. Destruíram as salas de culto, saquearam a câmara secreta, repleta de tesouros acumulados através das eras  – castiçais de prata, estatuetas de jade, mandalas cravejadas de esmeraldas e lápis-lazúli lapizazuli, ervas especiais trazidas dos mais distantes lugares. milhares de moedas acumuladas através das eras. Naquele instante, o corpo do último sacerdote era erguido no pórtico do templo. Seu sangue respingava nas escadarias de alabastro. Ele tudo observa. O último sacerdote de Ishtum deu seu derradeiro suspiro. Ele tudo observava. Não haveria mais volta. Ele, o último deus do antigo panteão, sem adoradores, humilhado e vilipendiado pelos fiéis de um deus que desconhecia, estava condenado ao Silêncio.

Abandonou o templo em chamas. Ouvia de lá os gritos de adoração ao novo deus, o único, segundo eles. Sua tristeza transformou-se num fino raio de sol que o encontrou na saída do templo. Deveria despedir-se da existência, abandonar para sempre o mundo dos homens e cair no esquecimento a que são condenados os deuses sem aqueles que orem em seu nome. Era o que devia fazer, era seu destino.

No entanto, quando já alcançava o último degrau da escadaria, entreviu uma menina sentada numa pedra, acariciando sua boneca de pano. Silenciosa, observava a destruição do templo de Ishtum. Não acreditou quando a menina largou a boneca e encaminhou-se em sua direção. Deteve-se a alguns metros dele e acenou-lhe um adeus. Ishtum deve ter chorado naquele instante: ainda lhe restariam alguns anos de vida, enquanto habitasse o minúsculo coração da menina.

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